Economics

Economia enquanto ciência é algo anormalmente recente, se tivermos em conta as outras áreas do saber. Aliás, não é absurdo questionarmos o carácter científico de muito daquilo a que se chama de Economia, se  pensarmos em termos numéricos. A Física olha para objectos cuja número mínimo numa experiência é da ordem de 10 levantado a 23. O número global de agentes económicos deve andar na ordem de 10 levantado a 11. Portanto, estamos num domínio onde a incerteza em termos dinâmicos é relevante, mesmo sabendo nós as leis que lhe estão subjacentes.

Mas incerteza não serve de desculpa. Isto no sentido em que o facto de termos uma aberta na certeza, não implica que caiba lá qualquer coisa, tal como o facto de não sabermos o está para lá do fim do Universo não justifica a existência de Deus. Na realidade, aquilo que está em causa é incerteza, não é total ignorância.

Este prelúdio para continuar uma conversa que veio daqui, sobre uma série de textos da autoria de Eugénio Rosa. Apesar de sabermos hoje que tudo aquilo que diz respeito à economia tem uma quantidade de incerteza atrás relevante, sabemos também o que é essa incerteza e o que não é essa incerteza. O ser humano é um bicho que procura perpetuar os seus genes e fará, em média, aquilo que é mais adequado  para tal de acordo com ambiente em que vive ou, em linguagem da termodinâmica, nas condições em que o banho económico em que está inserido lhe proporcionarem. O conjunto de tácticas e estratégias do conjunto de seres humanos gera aquilo a que chamamos economia. Se tivéssemos 10 levantado a 23 seres humanos a interagirem livremente teríamos mais certezas que temos hoje em que temos 12 ordens de grandeza abaixo.

Agora, todos sabemos a dinâmica do ser humano individual – perpetuar os genes.  E a forma do ser humano o fazer é aumentar socialmente a probabilidade de isso acontecer, pela acumulação de meios para tal – família, região, país, trabalho, bens, etc… Quando olhamos para os indicadores macroeconómicos é só um indicador macroscópico – uma “média” – daquilo que se está a passar a nível microscópico com cada um dos seres humanos. Por isso, tudo o que se tente fazer a nível macroscópico – estado – para melhorar os índices macroscópicos não pode ignorar a mecânica microscópica da coisa. No fim do dia, o ser humano continua a ser o mesmo bicho que era no início e os seus objectivos vão continuar a ser os mesmos.

Agora, aquilo que economia não é, é ser produto da opinião. Não é por termos uma opinião assim ou assado que vai mudar alguma coisa de relevante, nem é por o governo decidir isto ou aquilo que vamos deixar de ser umas moléculas agitadas à procura de sobreviver para foder.

Este prolegómeno era necessário antes de começarmos a discutir os “estudos” do Eugénio Rosa (as aspas porque há muita coisa de opinativo, não são apenas factos)

Anúncios

Sobre Tonibler

Um vintém será sempre um vintém, um cretino será sempre um cretino
Esta entrada foi publicada em Paridas Económicas. ligação permanente.

6 respostas a Economics

  1. Sérgio Pinto diz:

    Não é por termos uma opinião assim ou assado que vai mudar alguma coisa de relevante, nem é por o governo decidir isto ou aquilo que vamos deixar de ser umas moléculas agitadas à procura de sobreviver para foder.

    Isto equivale a ignorar todo o ramo de economia institucional, parece-me (se bem entendi esta tua passagem algo críptica).

    Quanto ao resto, podes assumir que uma coisa não deixa de ser o que é (em termos objectivos) apenas porque há ‘n’ opiniões sobre essa coisa (todas elas subjectivas). Mas não se percebe muito bem em que é que isso influencia qualquer discussão sobre economia/política económica, dado que essas terão que assentar necessariamente em interpretações pessoais (e subjectivas), sejam elas influenciadas pela corrente neoclássica, neokeynesiana, pós-keynesiana, marxista, austríaca…

    • tonibler diz:

      Pois, isto não é fácil de explicar e não é fácil para mim mapear para a metadata dos economistas. Mas cá vai…

      A mecânica microscópica do ser humano é aquela.Não vai deixar de ser aquela. Acumular para proteger os genes. E isto é feito nas circunstâncias que tiver que ser feito, por isso tudo aquilo que contrarie isto é feito por via repressiva, como nos regimes comunistas (embora o repressor siga a via natural, claro). Isto significa que todas as correntes que indicas estão erradas e todas estão certas e não é possível que exista alguma coisa que esteja certa em qualquer local em qualquer instante. E há detalhes de cada uma delas que estão absolutamente certas por acertarem com a dinâmica da agregação desta mecânica ´microscópica….Não é fácil de explicar, tenho que escrever um livro. Mas em resumo, não há duas medidas políticas certas, em cada instante, em cada local. O que favorece a discussão…:)

      Mas vai seguindo a discussão com o Elisiário porque estes textos do Rosa são porreiros para isso porque acartam muitos “à partes” ideológicos que o autor assume como certos.

  2. Elisiário Figueiredo diz:

    Não é fácil, todos sabemos que a “ciência” económica é recente e que os conceitos adjacentes a ela se contradizem muito das vezes em questões básicas e fundamentais, esta é a precessão que eu tenho da “coisa”.

    Ao trazer os textos de Eugénio Rosa a intenção foi alargar a discussão com base fundamentada, porque até aqui discutia-mos com base em pequenos “bitates” de uns franco atiradores da nossa praça.

    Todos os estudos ou trabalhos, científicos ou não, na área da politica, quer económica quer de outro índole, tem sempre a visão do autor, mas isso não tem forçosamente de ser mau, é sim outra visão dos factos, tão assertiva como as demais.

  3. Sérgio Pinto diz:

    A mecânica microscópica do ser humano é aquela.Não vai deixar de ser aquela. Acumular para proteger os genes.

    Tonibler,

    Uma pequena nota apenas, que esta resposta vai muito mais telegráfica do que o assunto mereceria, mas sempre é melhor que nada…

    A tua suposição aí transcrita contém em si mesma algo semelhante a esses “à partes”. Aliás, como seria inevitável que contivesse, dado que não há análise nenhuma que não tenha de assumir pressupostos, que naturalmente são um reflexo das convicções do autor e, portanto, necessariamente subjectivas.

    A tua suposição é um pouco como o ponto de partida dos neoclássicos, em que assumem várias propriedades relativamente aos agentes. No entanto, li há não muito tempo um livro (Black Swan, do Nassim Nicholas Taleb, não sei se o nome te diz alguma coisa) em que se afirma que mesmo propriedades aparentemente simples e lógicas como a transitividade não são observadas na realidade, em estudos empíricos…

    • Sim, Taleb é um sujeito interessante nas análise que faz (se lês Wilmott eles andam sempre juntos agora http://www.wilmott.com/) mas não deixa de ser um “estocástico”.
      Mas repara, o pressuposto é válido se olhares para um ser humano individualmente. Não vou assumir muitos mais pressupostos.

      PS: Um gajo por aqui que leu Taleb???

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s