A peça

Este ano, no percurso que está a fazer para primeiro-ministro, o meu filho mais velho faz parte do grupo de teatro da escola, pública, onde frequenta o 6º ano. Há cerca de 1 mês recebo em casa o convite para a festa de Natal da escola, dedicada ao multiculturalismo, em que os alunos representavam uma qualquer peça sobre um dos países de onde são originários alunos daquela escola. O meu filho tinha como papel ser um dos jograis, que ia apresentando as várias partes do espectáculo. Por isso ensaiou com as professoras responsáveis durante as horas vagas e nos feriados de Dezembro para que dia 18 estivesse tudo pronto.

No dia 18 lá estava no Pavilhão da escola para assistir ao espectáculo. Na realidade, toda a escola tinha sido convidada, os alunos estavam dispensados de todas as actividades desde as 14:00 para que fossem assistir ao espectáculo. As professoras responsáveis tinham contactado alguns das representações dos países em causa que lhes emprestaram algumas roupas e material. Outras entidades oficiais, como a junta e o ministério, financiaram a impressão de um pequeno programa e a contratação do material sonoro. Uma ou duas professoras de EVT, com alguns alunos, fizeram parte do guarda roupa, uma professora de música levou o seu material e alguns alunos. Uma professora de Educação Física levou alguns alunos do Desporto Escolar para fazer apresentações de Hip – Hop.

Às 14:30 deu-se o pequeno milagre que nunca tinha assistido numa escola pública. Uma festa de natal, feita pelos alunos para alunos e pais. A assistência era dirigida para a bancada com duas alunas a entregar o pequeno programa às pessoas que iam entrando. Tirando os fatos que vieram de algumas representações estrangeiras,  tudo foi feito com recursos da escola. O contra-regra era um aluno. A limpeza outro.

Estavam cerca de 1o00 pessoas na bancada do pavilhão para assistir, tendo sido atribuída aos professores que acompanhavam os alunos da assistência a tarefa de os controlar para não os deixar sair a meio de uma apresentação, o que era compreensível porque estamos a falar de um pavilhão desportivo sem grandes condições acústicas. Toda a apresentação estava a correr bastante bem até que, a meio de uma apresentação, alguns alunos se levantaram.

E aqui deu-se o segundo milagre, a professora responsável pelo espectáculo pediu para quem estava a cantar para parar e dirigiu-se à assistência dizendo “Eu peço aos professores que estão encarregados de não deixar levantar os alunos a meio de uma apresentação, que não os deixem levantar! Pelo menos isto são capazes de fazer? O que é estão aí a fazer, afinal?” E o espectáculo correu normalmente até ao fim. Quando acabou, perguntei ao meu filho se aquela senhora era do conselho executivo. Não, era só a organizadora do espectáculo.

Isto por causa da gestão da escola. Pouco interessa se estamos a falar de uma escola privada ou não. Este espectáculo é, em primeiro lugar, uma demonstração de brio profissional por parte de um conjunto reduzido de professoras que, sem problemas, têm coragem de dizer aos inúteis dos colegas que façam o mínimo de respeitar o brio delas e dos alunos. Não me venham dizer que é justo que estas professoras ganhem o mesmo, ou menos, que os outros que estão na bancada. Não me venham dizer que estas professoras são muito boas, mas os outros de bancada também são muito bons, sem terem o mesmo brio. e principalmente, não me venham dizer que isto é sinal de boa gestão de recursos humanos, porque não é. Eu, desde esse dia, cada vez que vejo uma daquelas gajas do sindicato a falar nos grandes méritos que todos os professores têm, vejo um insulto grosseiro àquelas 4 ou 5 professoras que levaram os alunos a apresentar um espectáculo daquela envergadura e que saíram orgulhosos de lá. Professores bons são aqueles que fazem falta nas escolas, públicas ou privadas. Os outros podem ser quaisquer uns, até se poderia fazer contratos de outsourcing que, para os resultados que produzem, seria igual.

Portanto, quando me perguntam a quem se entrega a gestão da escola pública, a escolha é muito simples –  a quem ponha na rua quem não tem brio e que pague mais a quem tem. E para isso tem que estar fora de uma lei geral.

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Sobre Tonibler

Um vintém será sempre um vintém, um cretino será sempre um cretino
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8 respostas a A peça

  1. Tonibler

    Isso é uma excepção que cada vez mais vai acontecendo por ai, eu conheço bem o ensino, quer o publico quer o privado, a maioria dos meus amigos pertence a essa “corja de inúteis” que são os professores do ensino publico e a minha mulher foi durante mais de 20 anos professora de Matemática num dos colégios de referência da grande Lisboa, as coisas não são tão lineares como às vezes parecem, nem o ensino privado é tão bom e eficaz como aparece nos rankings, nem o ensino publico é tão mau como aparece nos mesmos rankings, existe um conjunto de variáveis que faz com que a linearidade não seja uma constante.
    Já discutimos isso ainda na outra casa.

    • Uma excepção que cada vez mais vai acontecendo por aí…Sabe Elisiário, se calhar o que falta é mais porrada.

      Note que nesta excepção, que até pode justificar por ter sido numa escola cujo nível social médio (porque há filhos de emigrantes africanos) é relativamente elevado face ao país, não é só uma excepção escolar, é um conjunto de excepções individuais porque, naquele pavilhão, havia professores que se empenharam para fazer, outros se empenharam para colaborar e outros que cagaram no assunto. É exactamente por haver excepções, que mostram que a escola pode ser boa, que se deve IMPOR uma boa escola àqueles que recebem para tal e se deve dar meios de gestão para isso. Meios de gestão implica pagar mais a uns que a outros e a despedir aqueles que não têm brio profissional. Como em qualquer actividade.

  2. Estou de acordo, no entanto a componente alunos/extracto social é relevante e faz muita diferença quando se classifica as escolas.

    Os rankings funcionam, mais ou menos, como as estatísticas (o camarada Toni comeu dois frangos eu não comi nenhum logo cada um de nós comeu um frango), os rankings não têm em consideração factores importantes para a classificação, a classificação é bruto, binómio sucesso/insucesso escolar…… é pouco.

    • Elisiário, se a gestão das escolas fosse privada toda a gente reclamava por rankings. Depende como se estiver a ler o ranking. Lembro-me da primeira vez que saiu, que caiu o Carmo e a Trindade, havia uma escola pública de Setúbal, creio, que tinha as melhores notas a física. Os sindicatos, em vez de verem aí um elogio àquela senhora que era a responsável por essas notas, armaram um granel a defender todos outros que não tinham essas notas.
      Eu sou um defensor da escola pública se esta produzir as melhores notas. Senão, caguei em quem as produz, desde que as produza.

  3. As notícia que me chegam das escolas é que muitos dos melhores professores estão completamente desmoralizados, porque foram ultrapassados por colegas menos competentes. Parece-me que pior do que nenhuma avaliação é uma avaliação que premeie os piores. Logo, mais do que querer uma qualquer avaliação a todo o custo, não seria de discutir se os critérios desta avaliação promovem realemente os melhores?

    • Fosse qual fosse o sistema de avaliação, aqueles que tivessem as piores notas diriam sempre que foram os piores a serem melhor avaliados. Sempre. Mas ainda tenho uma história sobre a avaliação de professores….

      • Se o sistema for bom, talvez os mal classificados se queixam. Mas daqui não se pode concluir que se alguém se queixa então o sistema é bom.

        Acha que um sistema que promova os piores é melhor do que nenhum sistema?

  4. Carlos, leia o post que meti sobre “Ouros”. Como cidadão aceito algum custo a esse nível. Os alunos são mais importantes.

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