O modelo económico

Na sequência de um desafio do camarada Elisiário, cá vai o primeiro dos posts dedicados aos artigos de Eugénio Rosa, neste caso um intitulado “41% dos trabalhadores portugueses por conta de outrém recebem 2009 menos de 600 euros por mês”, editado em 31 de Maio último. Como se deve imaginar, longe de mim tentar sequer contestar os números que, suponho eu, devem estar correctíssimos. Não é por aí que a coisa não merece o comentário. Aquilo que merece a análise é o hábito, muito comum, de fazer “à partes” nos números para confirmar ideias pré-estabelecidas (mais Taleb…).

Primeiro vamos começar pelos 600 euros por mês. O que significa, de facto, 600 euros por mês? 600 euros por mês pode significar muito dinheiro ou pouco dinheiro. Na realidade, bastava ir a uns quantos quilómetros a Sul de Portimão e haveria quem se considerasse milionário se ganhasse 600 euros por mês. Porque os 600 euros, em Marrocos, comprariam uma quantidade razoável de trabalho marroquino. O nosso problema em concreto é que 600 euros não compram uma quantidade razoável de trabalho português e, principalmente, não compram uma quantidade razoável de trabalho alemão. E esta parte merece ser olhada em detalhe.

Porque é que 600 euros não compram uma quantidade razoável de trabalho português? Afinal, os números apresentados pelo Rosa mostram que 41% dos portugueses ganham menos que isso num mês, pelo que essa quantia deveria chegar para para viver. Mas temos a percepção de que os 600 euros não chegam para viver. Ora, metamos alguma lógica no assunto, se chegam para viver as pessoas vivem; se não chegam, as pessoas não vivem. O facto é que as pessoas vivem. Portanto, há que relativizar o drama. Os 600 euros, de alguma forma, acabam por comprar uma quantidade razoável de trabalho alheio, seja ele português ou não, capaz de manter essas pessoas a viver.

Agora, há um problema levantado pelo Rosa, que é de facto o problema, que é o de o trabalho português só valer aquilo que vale, ao ponto de 41% dos trabalhadores por conta de outrem só receberem 600 euros. Está relacionado com o “modelo económico” sim (se é que isto existe), mas não na forma que o Rosa sugere. Portugal não tem um “modelo económico” baseado nos baixos salários. Basta ver a quantidade de gente cujo ordenado depende do estado. Aos funcionários públicos todos, apesar das óbvias dificuldades de sustentação das contas públicas, nunca foi sugerido uma redução salarial nominal e, pior, nunca os custos de pessoal do estado ficaram abaixo de um crescimento de 4,5% (creio). Portanto, o “modelo económico”, se estamos a falar de uma intervenção pública na forma de relacionamento entre os vários agentes, é de altos salários.

O problema, é um problema termodinâmico. Não é por eu pagar mais por algo que esse algo vale “energeticamente” isso. Essa é uma falácia onde os economistas se deixam cair com muita facilidade. O facto de o valor de algo ser, essencialmente determinado pelo mercado, não é possível que esse valor esteja eternamente acima daquilo que é o seu valor “energético” (olhando fisicamente a coisa). Portanto, um “modelo económico” de altos salários não é gerado pelo pagamento de altos salários, mas valorizando no seu fundo a hora de trabalho para que esta valha mais e, no fim do dia, resulte num salário maior.

Ou seja, tendo Portugal um “modelo” de salário elevados, o facto é que boa parte dos portugueses não tem esse salário elevado. Isto porque o valor vem do alavancagem da energia consumida em trabalho e não daquilo que eu decido pagar por ele. Aquilo que o Rosa se deveria questionar é se os 600 euros não poderiam ser 900, se o estado português não impusesse um “modelo” sobre o país onde o trabalho de uns quantos está a pagar o rendimento dos outros. Mas isso iria contra a ideia pré-concebida para a qual está a aproveitar aqueles números.

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Um vintém será sempre um vintém, um cretino será sempre um cretino
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8 respostas a O modelo económico

  1. Camarada Toni

    Em primeiro lugar precisamos de quantificar ou qualificar o que é “viver”, é evidente que quem ganha 600 euros não morre, não deixa de comer e tem um tecto para “viver”, agora podemos é questionar se tem as condições mínimas para “viver” ou se “vive” abaixo daquilo que se convencionou.

    Agarrando no “binómio” Trabalho/produtividade, ou se os 600 euros compram o trabalho produzido, fica sempre uma dúvida, porque é que aqui a 300 kms o mesmo trabalho vale mais, no post Geração Perdida faço, com base numa noticia, menção a isso mesmo, o mesmo trabalhador em Portugal ganha metade daquilo que ganha em Espanha, os índices de produtividade dos Espanhóis não são o dobro dos Portugueses, então porque é que ganham o dobro?

    Eugénio Rosa não vai mais além do que aquilo que os números lhe permitem, não é num estudo destes que cabe fazer alusão à quantificação do valor do trabalho, mas tão somente chamar à atenção para o baixo valor com que o trabalho é pago, e ai fica a dúvida levantada pelo Camarada quando diz “o trabalho de uns quantos está a pagar o rendimento dos outros”, são noticias mais que badaladas que em Portugal o fosso entre ricos e pobres se tem agravado, com consequências gravosas ao ponto de existir quem questione os 25 euros de aumento no Ordenado Mínimo Nacional, são atitudes deste tipo que colocam em causa o valor do trabalho, ou se a baixa produtividade do trabalhador Português é da responsabilidade exclusiva dele, se os agentes económicos não têm responsabilidades, eu diria antes, responsabilidades exclusivas nesta matéria.

    E voltando ao primeiro paragrafo, “viver” é sobreviver? ou é algo mais? quantas horas de trabalho é necessário vender para poder viver? de quem é a responsabilidade da qualidade do trabalho, é de quem o produz? ou de quem o compra? porque é que o mesmo trabalho é vendido aqui a metade do preço de acolá?

  2. Elisiário,

    O camarada, como eu, passámos por tempos onde “é evidente que quem ganha 600 euros não morre, não deixa de comer e tem um tecto para “viver”” não era assim tão evidente.

    Os espanhóis ganham o dobro dos portugueses? “O facto de o valor de algo ser, essencialmente determinado pelo mercado, não é possível que esse valor esteja eternamente acima daquilo que é o seu valor “energético” (olhando fisicamente a coisa)”. Quanto é que os espanhóis têm de desemprego?

    “quantas horas de trabalho é necessário vender para poder viver?” Quanto é que o Elisiário me quer dar? Porque a pergunta é essa…Mas outros artigos devem lá ir ter. Agora, Elisiário, depois de anos e anos de (suposto) estado social e de estarmos endividados até ao pescoço, se os riscos estão mais riscos e os pobres mais pobres, será talvez altura de pensar que, se calhar, não é pelo estado que vamos lá. A não ser que haja quem precise de mais de 30 anos para ver isso, claro.

  3. A culpa não é do Estado Social Camarada, a culpa disto estar assim é de politicas desajustadas e mau uso dos fundos comunitários, durante estes 30 anos isto foi governado pelo PS, PSD e CDS ou em conjunto ou em separado, as politicas em nada foram diferentes, em coligação, sem coligação com queijo limiano ou outro queijo qualquer, agora neste preciso momento estão a preparar-se para votar o orçamento, não interessa que orçamento, interessa é que o orçamento tem de ser votado e tem de passar com os votos do PSD ou do CDS ou com a abstenção de ambos, tanto faz.

    Eu não sei se “isto” vai pelo mesmo caminho da Grécia ou da Irlanda ou do raio que os parta, sei é que a continuarem a fazer de conta que são um estado social, a fazerem de conta que nada se passa e que são sempre os mesmos a pagar as crises, com o agravamento dos impostos sem agravarem os impostos, a beneficiarem a banca dizendo que não a beneficiam e não fazendo uma verdadeira politica de criação de emprego, dando formação, mas mesmo formação, não é aquilo que só serve para dizer que temos a malta toda com o 9º ano, dar formação nas áreas mais necessárias e a quem mais necessita, não tem o 9º ano? não faz mal, sabe trabalhar com uma nova ferramenta que o mercado necessita? então está bem.

    Aquela agência que deveria andar a “vender” Portugal lá fora o que anda a fazer? os dossiers que Pinho tinha em maus onde estão? ele fechou com sucesso alguns contratos, foi-se embora nunca mais se falou de outras coisas que tinha em mãos, é isto que irrita, o homem era bronco, fazia cornos, dizia hoje uma coisa outra amanhã foi-se embora nunca mais se falou dos outros dossiers que o ministério tinha em mãos.

    Camarada não deite as culpas ao Estado Social porque isto nunca o foi, deite a culpa a esses dois partidos e meio que governaram este pais desde o 25 de Abril.

  4. É isso tudo. A culpa é nossa, porque os animais não foram lá parar sozinhos. A culpa é da ideia de estado social, porque foi essa a ideia que os lá colocou e vai continuar a colocar enquanto nos passar pela cabeça que podemos ser uma espécie de suecos a dormir e uns brasileiros acordados.

  5. Quem é este Taleb? li umas coisas avulsas e gostei, o gajo não gosta de economistas o que demonstra inteligência…., a imprevisibilidade é uma teoria engraçada e que não levamos a sério, vou “pescar” nestas águas.

  6. Nassim Nicholas Taleb, é doutorado em finanças quantitativas, foi trader durante alguns anos e é uma espécie de filósofo financeiro. Não concordo com muito do que ele diz, e usando as palavras dele, eu não sei se ele está certo, mas estou certo que ele está errado. De qualquer forma, hoje os meus estudos caiem todos naquilo a que ele chama de Black Swan Research.

    O livro mais vendido dele é o Cisne Negro, há na FNAC. Um dias destes vou postar sobre aquilo que está errado no pensamento dele. Quando tiver muito tempo…

  7. Ah, e o Cisne Negro do banner…vem daí…

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