A tinta

Alguns dias antes da eleição de Cavaco Silva, quando já toda a gente assumia que o destino das eleições estava traçado, perguntaram a Manuel Alegre o que achava de ter um presidente como Cavaco Silva, ao que ele respondeu que não ia perder o sono. A minha opinião era a mesma e posso dizer que não perdi o sono, mas Cavaco Silva falhou em quase todos os campos onde eu acho que um presidente da república é importante.

Eu fui um apoiante de Manuel Alegre nessa eleição. O meu nome ainda está lá no site, entre os primeiros. Sempre achei que ele era talhado para o posto – Benfiquista, Aficionado, Poeta, Apaixonado pelas causas – Manuel Alegre representa o bom português (e se calhar até é) com méritos vincados na vida, com talentos que os portugueses pagam livremente, não porque lhes são impostos. Ao contrário de Mário Soares, por exemplo, que é a encarnação do mau português – calão, trafulha, mentiroso, preguiçoso e fura-vidas. E foi exactamente no dia em que Mário Soares resolveu ser candidato, que eu resolvi ser apoiante de Alegre. O opositor de Soares não era Cavaco, era Alegre. Não era um funcionário público, era um lutador de facto. Mas, para além de tudo isso, sempre acreditei que Manuel Alegre faria aquilo que representa ser um presidente da república e que só duas pessoas o souberam fazer – Ramalho Eanes e Sampaio.

Ser presidente é não fazer nada na maior parte do tempo. Se tudo correr bem, não faz nada nunca. Mas tem que lá estar quando corre mal. Um presidente é um farol. Quando tivermos um terramoto, uma guerra, as pessoas têm que olhar para a frente e ver que ainda há um país quando virem esse personagem. Por isso deve ser reservado, não se deve meter em merdas, não deve descer ao nível de um Sócrates e, principalmente, deve ser intransigente na defesa da nação. Cavaco não foi isso, meteu-se em merdas com o Sócrates, agrediu a constituição que prometeu defender ao emitir considerações moralistas, tomado o partido de uma parte do país contra a outra mas, pior de tudo, cedeu na defesa do país. A constituição europeia não deveria ter sido aprovada por Portugal sem referendo, nunca. Um presidente que colabora em cedências de soberania sem consultar o seu povo, não é um presidente digno de ocupar esse cargo. Por isso, nas próximas eleições, o meu voto estará novamente em Manuel Alegre e estou quase certo que, desta vez, vai ganhar. A tinta que se poupou na cruz do referendo europeu vai fazer Cavaco entrar na história como o primeiro presidente da república a não repetir o mandato. E que sirva de exemplo…

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Sobre Tonibler

Um vintém será sempre um vintém, um cretino será sempre um cretino
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4 respostas a A tinta

  1. Laranjada Ovarense diz:

    “Não era um funcionário público, era um lutador de facto.”
    É pá, não me faças rir que estou com hemorróidas …

  2. Isto poderia ter sido escrito por mim, aliás a meio do texto ainda coloquei essa hipótese, mas não foi o Camarada Toni.

    O pensamento, a postura de Manuel Alegre em relação à Presidência da Republica é o que mais o separa do actual, senão vejamos:

    “Portugal tem futuro mas o país está doente. E isto não pode ser enfrentado com uma visão tecnocrática, é preciso visão política, cultural e histórica. Essa é a função do PR.”

    “O PR tem direito à opinião e eu não sou por um corta-fitas. Mas além dos poderes que tem, é sempre um último reduto cívico, a voz dos que não têm voz, uma referência. Deve ter uma filiação nos valores históricos e culturais do país e saber ler e interpretar o país. Pensar o impossível e ver o que não é visível. E isto não é poesia, é a função de um PR, ter capacidade de antecipação, ser ousado nas intervenções e decisões, sem que isso signifique substituir-se ao Governo.”

    “Portugal vive uma crise nacional. Lembra-me o fim da monarquia. Há quem diga que o país vai acabar, que mais valia sermos espanhóis. Há uma crise de confiança. E isso é grave. Somos a mais velha nação da Europa. Isto custou muito a fazer, foi sempre uma magnífica obra de vontade através dos séculos. Somos uma nação com uma história incomparável e isso deve ser transmitido às novas gerações, que se calhar não o aprendem porque se discute muitas coisas na educação mas não o essencial: os programas e o conteúdo do ensino.”

    Ao perguntarem-lhe se Portugal tem futuro? responde,
    “Se achasse que não tinha, fazia “qualquer coisa de louco e heróico”, como diria o Manuel da Fonseca! Ou mandava tocar “a marcha Almadanim” ou fazia uma revolução. “Portugal é o futuro do passado”, disse Pessoa. Claro que tem futuro! Vi Lula em Copenhaga a falar português e a citar o padre António Vieira: se calhar, o Quinto Império é o império cultural e da língua. Essa é a força de Portugal! Não se resolvem os problemas da economia sem orgulho ou confiança no país, se as novas gerações andam de estágio em estágio e os melhores ficam na precariedade ou abandonam o país. A minha geração nasceu sob a ditadura, mas nós acreditávamos em Portugal. Como é que hoje os jovens acham que isto não tem perspectivas? Portugal tem futuro mas o país está doente.”

    Esta é a forma universalista com que Manuel Alegre vê o papel de Portugal, é pela língua, é pela cultura e pelos valores históricos, a função do PR não é fazer, é verificar se realmente se faz e de que forma se faz, é dar esperança tanto ao executor como ao povo, é falar a língua de Camões de forma a que todos, sem excepção o entendam.

    Estou com Manuel Alegre desde o congresso de 2004 quando o apoiei contra Sócrates.

    • Caro Elisiário,

      essas frases ficam sempre bem…mas só dizem o que a agencia de comunicação lhe mandaram dizer.Não apresenta qualquer solução e são apenas fala poética. Já viu o que seria termos o Sócrates de um lado e ou outro a recitar sonetos de Camões ?

  3. a. pinho cardão diz:

    E ainda tem outras qualidades pessoais que eu muito aprecio: caçador, pescador, bom gourmet, poeta…
    Pois é. Cavaco não tem nada disso.
    Mas teve vida profissional para além da política. Conhece o meio, sem ser do meio. Não tem que prestar vassalagem a ninguém para ser eleito, como Alegre tem que pedir ao PS, ao Bloco, ao PC. Cavaco não é refém de ninguém.
    Não é bom orador, como Alegre. Mas, quando fala, é sóbrio, não tem frases barrocas e os portugueses entendem-no; por isso, quando se apresenta, costuma ter a confiança dos portugueses. Irá tê-la mais uma vez, se se candidatar.
    Terá uma boa réplica de Alegre, tal não duvido. O que só valorizará a sua vitória. Tenho dito.
    E parabéns pela nova imagem do Blog.

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