A admirável estupidez

Há duas formas de encarar, por parte de quem está sentado em Portugal, o inquérito que hoje começa sobre o papel do primeiro-ministro inglês na invasão do Iraque.

A primeira, pelo acto do inquérito. É admirável a forma como os ingleses encaram os políticos mas, particularmente, o papel dos políticos na sociedade. Um político é, em primeiro lugar, um servidor e não um chefe. Por isso deve ser tratado como tal e ninguém está acima do escrutínio ou, neste caso, de um inquérito para apurar responsabilidades. Se pensarmos na forma como, nós portugueses, atirámos para baixo do tapete um inquérito sobre as responsabilidades de Mário Soares em colocar 1 milhão de refugiados pelo mundo, um inquérito sobre os crimes fascistas do PCP no pós-25 de Abril ou a sua participação na transferência dos arquivos da PIDE para o KGB ou, mesmo, um inquérito sério sobre a PIDE; todo este inquérito inglês é, para nós, exótico.

A segunda, pelo objecto do inquérito. Como é dito aqui, hoje ninguém se vai lembrar do papel de Tony Blair na vida da Grã-Bretanha que vai muito para lá da mera política partidária, como está reflectido. A salvação do sistema de educação e do sistema de saúde, por exemplo, devem-se a ele bem como a quase morte do IRA. Hoje é o dia de se ouvir quem fala mais alto, mas quem fala mais alto não é a voz que interessa. Claro que todos os fantásticos activistas e moralistas da esquerda rasto-batuqueira vão fazer uma enorme barulheira em torno do inquérito e vão festejar cada ovo ou cada pedra que se lance na direcção do ex-PM. Lamberão cada lágrima (legítima) das famílias das vítimas de Londres e dos soldados (profissionais, diga-se).

No entanto, o papel de um PM é aquele. Julgar com a sua consciência aquilo que considera mais valioso para a nação e fazê-lo, apesar da opinião dos seus inimigos e amigos. Churchill fê-lo e recorde-se de que lado estava a esquerda rasto-batuqueira da altura (ou os avós destes). Fê-lo, como fez a Espanha, a Itália, a Polónia, a Holanda, a Dinamarca e, na realidade, a maioria dos países europeus tirando aqueles que lucravam com a ditadura de Sadham. Se hoje ninguém se vai lembrar do papel de Tony Blair na história da Grã-Bretanha, é uma questão de má memória, não de realidade. Ele teve de facto esse papel. E aquilo pelo qual a esquerda rasto-batuqueira berra é por aquilo que sempre berrou – para ter uma razão para berrar (que, curiosamente, a ditadura de Sadham e as sevícias de Ali, o Químico, não pareciam ser razão).

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Sobre Tonibler

Um vintém será sempre um vintém, um cretino será sempre um cretino
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15 respostas a A admirável estupidez

  1. Ninguém nega o papel que Blair teve nas vitórias do seu partido, também não se nega o papel que teve na consolidação de algumas politicas sociais, no entanto já podemos questionar aquilo que foi chamado de 3ªvia, ou ainda aquilo porque está a responder, o apoio à guerra do Iraque.
    Sadam era um ditador, cometeu crimes contra o seu povo, mas, este mas não desculpabiliza as atrocidades, mas, dizia eu, foram mortos mais Iraquianos durante a ocupação que durante a ditadura de Sadam, além de que hoje ao saírem do Iraque deixam um pais completamente destruído, deixam uma sociedade desacreditada nas instituições, até porque elas não existem ou são precárias, em suma o remédio foi pior que a doença, isto para não falar no móbil que levou para o Iraque americanos e ingleses com o apoio, não podemos esquecer, de um dançarino de flamengo e um empregado de mesa de café.
    Se Blair devia responder por isso ao seu povo? acho que não, deveria sim responder conjuntamente com Busch, Aznar e Barroso nas instituições internacionais, deveria levar-se isto até às ultimas consequências, saber quem na realidade foi o mentiroso, se acaso existiu.
    O mundo não pode ficar refém de uma nação que inventa umas armas que nunca existiram, uns laboratórios que, ficou provado, eram fábricas de leite em pó, para atacarem um estado soberano e independente.
    Aquilo que vou dizer a seguir já sei que me vai acusar de anti americanismo, que quer eu não esqueço a história recente, mesmo ali ao lado existia, ainda não à muitos anos, um pais governado por uma das ditaduras mais sangrentas das ultimas décadas, estou a falar do Chile e de Pinochet, e nunca vi os americanos levantarem um dedo, pelo menos para acusarem aquilo que era uma evidencia.

  2. Isso é tudo treta, Elisiário.

    Primeiro, quer que os americanos sejam coerentes, seja americano e vote. Os americanos têm que ser tão coerentes como os seus interesses o ditem. Gostava de perceber quantos portugueses estava o Elisiário disponível para perder numa guerra de solidariedade….

    Segundo, todos os argumentos de que fala são ideias feitas sem sentido. O Elisiário seria um opositor de Churchill na decisão de declarar guerra a Hitler, de certeza. Posso garantir-lhe que a guerra matou muitos mais polacos e franceses que aqueles que mataria se a Grã-Bretanha não entrasse na guerra. Mais, talvez me esteja a dizer que os 6 milhões de judeus não valiam os outros milhões que morreram. Esquece-se o Elisiário que metade dos curdos foram mortos com armas químicas, o que o Elisiário quer dizer é que pelos curdos não valia a pena.

    Terceiro, instituições internacionais? O que é isso? Bush? Que tal Clinton? Que tal Guterres? Que tal Sampaio? Clinton bombardeou o Iraque só para que os jornais não falassem do broche da Lewinsky. Porque é que suspeitas de armas de destruição maciça são piores que isto?
    Mais, Bush não cometeu nenhum crime de guerra de acordo com o direito internacional. Sampaio, sim. Guterres, sim. Bush, nenhum. Blair, nenhum. Explique-me lá, Elisiário, qual é o crime de guerra de que quer acusa-los? Só se for não estarem a receber dinheiro do Sadam, como acontecia com os franceses e os alemães….

  3. O camarada anda muito depressa, comparar a guerra do Iraque com a 3ª guerra mundial, faz favor!
    Comparar Churchill a Bush ou os motivos de um e de outro, faz favor!
    Diga-me porque é que os americanos nunca se preocuparam com os mais de 30000 assassinados por Pinochet? ou os mais de 35000 prisioneiros políticos?
    Em relação a Sampaio e Guterres é que não estou mesmo a ver o que eles fizeram.
    Quanto a Clinton só tenho a dizer que o homem tem muito mau gosto em relação a mulheres, a Mónica era uma badocha que faz favor!

  4. Sampaio e Guterres são responsáveis por um ataque à Federação Jugoslava, sem pré-aviso de guerra ou declaração de guerra. Nem Bush, nem Blair cometeram esse crime. Portanto, se há alguém para ser julgado, são eles.

    Bush? Pinochet? Estavamos a falar de Blair. Como é fácil cair naquilo que nos querem fazer pensar.

  5. cmonteiro diz:

    O desconhecimento da História é lamentável. Houve de facto um aviso de guerra e foi a Nato que o fez à Jugoslávia na pessoa Xavier Solana.

    Podes ir falar sobre crimes de guerra aos bósnios encontrados em valas comuns, assassinados pelo exército sérvio..

    • Mesmo que isso fosse verdade, é o Javier Solana que declara guerra por Portugal? De qualquer forma, o Javier Solana veio informar que estavam (não que iam) a bombardear Belgrado porque, se bem te lembras, aviaram a embaixada da China pelo caminho. Mas está aqui um texto engraçado sobre o bombardeamento de Belgrado e o papel de Sampaio e Guterres na guerra do Iraque. Bush usou a Sérvia como precedente e não vejo porque não o poderia fazer.

      “Before his decade working for the EU began, he had already been comfortably ensconced in Brussels as Nato’s secretary general. There, he literally left his old job with a (distant) bang by overseeing the bombing of Serbia in 1999, which left about 500 civilians dead, according to Human Rights Watch, and the use of cluster bombs by Britain and the US, which caused horrific injuries. By doing this without a UN mandate, he helped to create a precedent whereby a spurious definition of humanitarianism was used to resort to force. Less than four years later, George W Bush invoked the core tenets of the underlying doctrine to attack Iraq.”

      http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2009/jul/08/javier-solana-eu-foreign-policy

  6. cmonteiro diz:

    Ninguém declarou guerra por Portugal. Portugal pertence à NATO e foi no âmbito da Nato que actuou. E sim, a NATO avisou que ia intervir.

    Os bombardeamentos à embaixada chinesa foram danos colaterais, simplesmente.

    É também admirável a tua ignorância em relação ao conceito de “crimes de guerra”, dado que a não declaração de guerra não constitui crime de guerra.

    Podes falar dos bushs que quiseres e dos tonis que quiseres, mas eu estou a falar do Rodovan Karadzic.

    Mas desse nao falas tu.

    Acho que o teu problema é mais entre uma guerra feito por um presidente Democrata e por um Republicano, e a defesa do lacaiozismo e mentira que envolveu toda essa vergonha do Iraque.

    É curiosa essa distinção entre crimes de guerra, e «coisas que devem ser feitas», quando os EUA bombardeiam com bombas de fósforo (crime) populações civis no Iraque (crime de guerra), é a vidinha, quando Israel bombardeia populações civis em guettos (crime de guerra) é a vidinha.

    Quando a Nato ataca um exército, depois de anunciar que o ia fazer, que está a matar massivamente populações civis, é crime de guerra, só para chatear os Guterres. No minimo és cómico!

    Ao menos, no Kosovo a intenção era travar um genocídeo que estava em curso, com valas comuns, campos de concentração e execuções em massa.

    Já agora, pssst, só aqui entre nós:O clinton não bombardeou o Iraque. Quando a outra lhe fez o bóbó, bombardeou o Yemen, onde se sabia haver redes bem montadas de apoio ao terrorismo. E tanto assim foi que passados alguns meses, o primeiro navio americano a ser atacado a seguir à segunda guerra mundial, O Cole, foi no… Yemen… vê lá tu. A coisa no yemen é de tal forma que presentemente se anda a pensar atacar o Yemen outra vez. é uma questão de tempo. E não consta que ninguém andou a fazer broches ao Obama.

    Pior que a demagogia, só a demagogia aliada à ignorância.

    • Pois, não queria estragar a tua enorme cultura, mas se fosse confirmar sabias que foi mesmo um ataque de mísseis cruzeiro contra o Iraque. Mas pronto, se calhar foi o Clinton que não te consultou primeiro…

      Quanto aos crimes de guerra, basta consultares as condenações da Alemanha na segunda guerra mundial. Google books? Wikipedia? Crónica Feminina? Pior que não saberes, é essa arrogância. Foda-se se não sabes, não inventes.

      É crime de guerra todo o acto de agressão sem declaração prévia ou ultimatum formal. Terceira convenção de Haia se precisares de ir à procura. Nada disso foi feito relativamente à Federação Jugoslava.

      No kosovo devem ter morrido metade dos kurdos. Estás a jusitificar o Bush, é isso?

  7. cmonteiro diz:

    As convenções que regem os Crimes de Guerra são as de Genebra. A NATO anunciou a intervenção. O ataque foi ao Yemen. Os factos são esses. A intervenção no Iraque não foi feita sob a capa de uma intervenção humanitária. É essa a diferença: no Kosovo foi-se lá para salvar vida, no Iraque foi -se lá por merdas várias e depois vieram com a desculpa dos Curdos, mortos com armas americanas…

    É de tal forma rídiculo o que dizes, que o próprio Blair, ARDENTE DEFENSOR da intervenção no Kosovo

    (‘Justice is all that those poor people, driven from their homes in their thousands in Kosovo, are asking for, the chance to live free from fear. We have in our power the means to help them secure justice and we have a duty to see that justice is now done.’ Tony Blayr)

    está a ser questionado pelo seu papel na mentira do Iraque, não sobre o papel do Reino Unido no Kosovo (escapou-te este pequeno detalhe, não foi?…)

    As coisas são sempre um pouco mais complicadas do que a demagogia insinua.

  8. Sim, claro, como é que não me fui lembrar disso!?!?…Haja pachorra, da-se!…

  9. cmonteiro diz:

    É normal, tu falas sem te lembrar de muitas coisas e depois sai o que se vê.

  10. cmonteiro diz:

    O problema é que as coisas estão no Google, mas se não as sabes, misturas tudo. Posso desafiar-te a comprovares aí os factos, se quiseres. Desde que não me comproves com páginas no INE que não existem…

  11. como te disse, falta-me a pachorra e, principalmente, eu sei que tenho razão e a minha dúvida seria a única razão pela qual eu me daria ao trabalho da procura. As tuas certezas, como imaginarás, não me interessam.

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