Nostalgia de fim de verão.

Passei sempre as férias grandes em Silgueiros, repartíamos as férias com outra casa em Viseu mas a maioria do tempo era passado em Silgueiros, após uma curta temporada de praia aqui nos juntávamos com os Costas, o Manel o Zé a Cucha e um mais novo o Pêpê filho do Vasco e da Ana Maria, foi assim até aos meus 15 anos, recordo os passeios de bicicleta, as idas ao rio as festas familiares onde a Cucha ensaiava uma pequena peça que era feita no barracão em cima de uma enorme mesa, terminada esta era o bailarico onde giravam discos de 45 ou 78 RPM de artistas tão variados como, Françoise Hardy, Michel Polnareff ou Toto Cotugno, era a época da musica romântica Francesa e Italiana, os Beatles davam os primeiros passos. Recordo-me dos Guerras, gente muito humilde que vivia na aldeia e que se juntavam em brincadeiras ao nosso grupo, recordo-me dos primeiros cigarros fumados às escondidas, recordo-me das idas à Feira de S. Mateus, metíamos no bolso 5 ou 10 escudos apanhávamos a camioneta para Viseu que passava à porta dos Costas impreterivelmente às 13,30H, no regresso partia de Santa Cristina às 18,30H, raramente conseguíamos apanhar esta o que fazia com que o regresso fosse a pé, cerca de 10 Kms. Por volta do dia 15 de Setembro começavam as vindimas e com elas o fim das férias, apoderava-se de mim um sentimento repetido ano após ano, um aperto no peito, a despedida dos amigos de férias, o acabar dos cheiros das ervas, das rosas do quintal e do bucho ou do limoeiro que existia ao fundo das escadas, para culminar, o regresso a Lisboa, já em Lisboa o tal sentimento perdurava durante algum tempo.

Aos 16 anos, por razões de saúde do meu padrinho, não fomos para Silgueiros, passámos todo o Verão em Viseu com excepção das duas primeiras semanas de Julho que fomos à Figueira da Foz, em Viseu morávamos na Av. Oliveira Salazar hoje Av. 25 de Abril, um apartamento amplo num 5º andar com vista para os jardins e piscina do Hotel Grão Vasco, morava no 7º andar uma menina muito recatada, educada num colégio de freiras, muito religiosa, lindíssima e com corpo de mulher. Era visita assídua lá de casa para rezar o terço, ela a avó e a minha madrinha, mantinha com ela uma troca de olhares que insinuavam mais do que um olhar de amigos, passámos a encontrar-nos nos andares do prédio desocupados pelos veraneantes, o namoro surgiu sem pedido como era tónica na época, era namoro, a expressão “andar” ainda não tinha nascido, além da menina conquistei a confiança da avó que me entregava a Fátima, ela chamava-se Fátima, nome da Santa devota da avó, a “entrega” era feita sem conselhos ou pedidos horários, era simplesmente uma “entrega” com a expressão “vão com Deus”.

Estávamos no princípio do mês de Agosto o parque da cidade era o destino único dos namorados, o parque possuía recantos e vegetação frondosa que dava a privacidade para o inicio das brincadeiras “proibidas” ou “perigosas”, recordo-me de um dia ao descer de elevador do 7º andar juntamente com a Fátima olhar para ela e encontrar um olhar que nunca tinha visto, os olhos, lindíssimos, estavam mais brilhantes e maiores e os lábios mais carnudos e vermelhos, qual não é o meu espanto, pára o elevador a meio do percurso e diz-me: beija-me, eu beijei-a, ela afasta-me e começa a desabotoar o vestido num jogo de sedução que eu com 16 anos nunca tinha assistido, tudo isto fazia com a naturalidade que lhe advinha do ser lindíssimo que era, ficou com os seios à vista, começámos um jogo, perigoso confesso, mas divinal, no fim vira-se para mim e diz-me: Já te tenho, já posso dizer, és meu.

As férias continuaram com encontros cada vez mais íntimos e cada vez mais perigosos, não tínhamos a noção de nada, fazíamos aquilo que os nossos corpos pediam, dávamos azo à nossa libertinagem. Trocámos juras de amor eterno, marcámos data e local de casamento, o número de convidados, quantos filhos teríamos e os nomes.

Com a chagada do fim das férias chegou também “aquele sentimento”, mas agora mais doloroso, mais intenso, com o inicio do sono acompanhado de um choro abafado pela almofada, cada dia que passava era um dia de tormento, só estávamos bem juntos, deixámos de comer de rir ou simplesmente de nos amarmos, chegou o fim ao 65º dia, o dia da partida, ela na janela do 7º andar eu no carro a afastar-me do amor da minha vida, fui apanhar o comboio na estação de Oliveirinha, juro, mas juro por todos os santos em que já acreditei e pelos que ainda hei-de acreditar, eu vi-a, era ela, ao passar na estação de Nelas já na linha ela estava lá a acenar-me e a dizer: já te tive, já posso dizer, és meu.

Em Lisboa na Estação de Santa Apolónia a minha vontade era entrar no primeiro comboio com destino ao Norte, estavam na estação à minha espera os meus pais e dois ou três amigos, o meu pai pergunta-me antes de entrar no autocarro que nos levaria até casa: quem é a Fátima? Porquê? Pergunto eu, é que tens lá em casa 52 cartas dela.

Sobre Elisiário Figueiredo

Camaradas...! Eh, camaradas...! ouvi, Que vou dizer-vos quem sois, Pois vou dizer-vos quem sou.
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3 respostas a Nostalgia de fim de verão.

  1. Carla Sthenford diz:

    Caro Elisário
    Foi com gosto que li o seu artigo e confesso que sou um pouco lamechas, a sua história comoveu-me.
    Espero que esse grande amor tenha tido continuação e muitos anos de felicidade.

  2. Carla Sthenford

    A intenção do meu post não foi contar a história de amor, se reparar o título do post é “Nostalgia de fim de Verão”, o post tem duas histórias, uma que foca a minha vivência desde criança até a adolescência focando os sentimentos que me ocorriam no final dos Verões.

    A outra história tem o mesmo sentido mas já numa fase mais avançada da adolescência, já na puberdade, aliado aos tais sentimentos teve também a primeira experiência com alguém da minha idade com quem vivi um amor, hoje defino-o assim, isto é um facto que não se esquece.

    O ser humano é um conjunto de vivências e recordações, no sábado senti uma nostalgia que fez com que “viajasse” até essa época, somente isso e mais nada.

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