As galinhas do Magalhães.

Estávamos no ano de 1973 em plena era Marcelista, Viseu fervilhava de anti-situacionismo. O Dr. Magalhães ilustre médico desta cidade era o líder de uma mesa no Clube onde pontuavam o advogado Morais mais o director do jornal o Dr. Cruzeiro e mais uns tantos convivas que passavam o fim de tarde ou mesmo as noites a conspirar. O Clube era privado onde só os sócios ou seus familiares podiam entrar, por isso, tornou-se no local ideal para actividades de mesa conspirativas, não passavam de palavras essas actividades, eu pertencia ao grupo da “estudantada”, era assim que o Dr. Magalhães nos tratava. Por volta das 20 horas, depois do jantar, estava o Dr. Magalhães mais o seu séquito em amena cavaqueira sobre galinhas e sua forma de confecção, quando diz:

– Não existe em todo o *Condado Visiense tão boas galinhas como as minhas.

Logo o meu amigo Luís Madeira responde:

– Gostava de provar isso, Dr. Magalhães.

De imediato o Dr. Magalhães, para gáudio dos seus convivas riposta:

– Isso era se eu o convidasse.

O Luís Madeira não era rapaz para se ficar, eu que era quem melhor o conhecia pensei, o que é que este gajo vai fazer?

Saímos do Clube e fomos esfumaçar para a esplanada do parque, passadas aí umas belas duas horas diz o Madeira:

– O gajo está fodido comigo, vou à capoeira do gajo e roubo-lhe as galinhas.

Isso era fácil se o Dr. Magalhães não tivesse dois Serra da Estrela a guardar os domínios dos galináceos, mas o Madeira não desiste e começa a estudar um plano.

– Em primeiro vamos fazer o reconhecimento do terreno e depois logo se vê, se somos capazes de colocar faixas à entrada da igreja em véspera de cerimónias religiosas também somos capazes de roubar as galinhas ao Magalhães, diz o Madeira.

Após o reconhecimento do terreno ficou delineado um plano, 2 ficavam à frente da casa do Magalhães para entreter os cães, os outros quatro deslocavam-se na carrinha Volkswagen pão de forma e paravam à porta da casa devoluta cujo quintal fazia parede meia com o galinheiro, fácil! Da porta lateral da carrinha sai o Madeira e eu, o Madeira leva dois cordéis com laço numa das pontas e uma lanterna, eu fico com a saca, os outros dois saem da carrinha e ficam à coca não vá o guarda-nocturno começar a ronda mais cedo, o Madeira debruça-se silenciosamente no muro aponta a lanterna a um dos galináceos deixa cair o laço puxa e uma já está, passa-me a galinha e vai para o saco, o mesmo acontece à segunda, e ouço o Madeira.

– Limpamos o galinheiro todo?

– Não! Deixa isso para outra altura.

Assim como saímos da carrinha assim entrámos, mas agora com duas galinhas, o Inácio Freire, um dos compinchas, tinha uma cozinheira de créditos provados, não será necessário dizer que o Inácio levou as galinhas para casa para serem confeccionadas.

No dia seguinte, por volta das 6 horas da tarde, a “estudantada” estava no clube com o petisco, era hábito o Dr. Magalhães e os seus compinchas a essa hora passarem por ali para beber qualquer coisa para abrir o apetite para o jantar, logo que o Dr. Magalhães entrou reparou que existia mesa preparada para jantar e com a sua forma peculiar perguntou:

– Quem faz anos?

– Ninguém! Mas se quiser juntar-se a nós temos o maior prazer em servir-lhe a melhor galinha do Condado Visiense. Diz o Madeira.

O Dr. Magalhães dá uma sonora gargalhada e dispara:

– Passe então lá um pratito com isso que eu só de provar digo já.

Conhecedor dos créditos culinários da cozinheira dos Freire, pois era visita habitual da casa, comenta:

– Está bem disfarçada, a cozinheira é de “truz” já a galinha não vale nada, é velha, sente-se na boca as carnes envelhecidas.

A “ estudantada” dá uma sonora gargalhada chegando ao ponto do Lopes cair da cadeira, aí o Magalhães  a olhar para o Madeira grita para o empregado de mesa:

– Traz aí o telefone, o telefone tinha fio suficiente para chegar às primeiras mesas, liga para casa e pede uma contagem dos galináceos, logo dispara:

– Safardanas, foram-me ao galinheiro.

Jantámos em amena cavaqueira, ganhámos o respeito do Dr. Magalhães que nos autorizou a chama-lo pelo nome, sem o Dr., e passou a contar esta história sem o mínimo de ressentimento mas apimentando-a como só ele o sabia fazer.

Passados muitos anos, venho a sentar-me juntamente com a minha mulher no café Rossio ao lado da mesa onde estava o Magalhães, e cumprimento-o, ele não me identificou logo, quando digo o meu nome dispara:

– Safardana, tu eras um grande safardana, tira o chapéu da cabeça, cumprimenta a minha mulher e começa a contar-lhe a história das galinhas.

*O Dr. Magalhães afirmava ser de descendência monárquica, usava no dedo mindinho um anel mas sem Brasão, dizia que os antepassados o tinham vendido e que ele agora usava no coração o Brasão da Republica.

Sobre Elisiário Figueiredo

Camaradas...! Eh, camaradas...! ouvi, Que vou dizer-vos quem sois, Pois vou dizer-vos quem sou.
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Uma resposta a As galinhas do Magalhães.

  1. portanto, têm no curriculum a experiência de “pilha-galinhas”

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